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A importância do aprimoramento contínuo do profissional do agronegócio

Por Karoline Miranda

Quando o assunto é Crédito no Agronegócio, existe uma abrangência de diversas informações que necessitam ser analisadas. Um profissional do Agronegócio deve possuir um conhecimento extremamente desenvolvido sobre técnicas de Análise de Crédito. Este tema não deve ser estudado apenas pela área de Crédito, mas também por todas as pessoas envolvidas na organização, e que fazem parte do contexto e do atendimento ao cliente.

Temas como Análise de Crédito, Política de Crédito, Endividamento, Risco de Crédito, Score, Rating, Contratos Agrários, CPRs, Cheques, Procurações, Endossos, Duplicatas, Barter, Recuperação Judicial, Holding entre outros, apesar de ser temas corriqueiros do dia a dia, não são conhecidos com tanta profundida pelos encarregados de tal área.

Um profissional da área de Crédito do Agronegócio, além dos pontos citados acima, ainda precisa ter noções jurídicas do direito do agronegócio, noções sobre o código civil  e leis especiais (entender sobre regime de casamento por exemplo), noções sobre registros cartorários, cláusulas obrigatórias nas confissões de dívidas, CPRs e ainda  “um pé na Agronomia” (noções de cultivos, período de safra por cultura, produtividade etc).

O objetivo da análise de crédito nas Revendas é o de identificar os riscos nas situações de financiamento dos insumos, evidenciar conclusões quanto à capacidade de pagamento do produtor/pecuarista e fazer recomendações relativas à melhor estruturação e tipo de garantias necessárias, mitigando riscos e consequentemente reduzindo a inadimplência. Para realizar a análise de crédito, deve-se recorrer ao uso de duas técnicas: a técnica subjetiva (baseada no julgamento humano) e a técnica objetiva (baseada em procedimentos estatísticos).

Há pouca capacitação (cursos e treinamentos) específica para profissionais nesta área. Por este motivo, é essencial e oportuno compartilhar informações que possam aprimorar o conhecimento desses profissionais e estimular a ter uma análise com senso crítico, para isto, iremos fazer uma série com 3 temas para abordarmos, objetivando uma conjuntura teórica e prática, a fim de enriquecer em conhecimento os profissionais que atuam nesta área.

Os principais elementos utilizados em uma análise de crédito são: C´s do crédito, endividamento e fluxo de caixa.

No artigo de hoje, irei abordar os C´s do Crédito, que são conceitos essenciais para uma boa qualidade de crédito.

As informações que são necessárias para a análise subjetiva da capacidade financeira dos clientes são tradicionalmente conhecidas como C´s do Crédito: caráter, capacidade, capital, colateral e condições.

Primeiro C: Caráter.

Analisa a índole do tomador de crédito, sua capacidade de pagamento em relação ao seu endividamento e histórico de pagamento. Como analisar esta idoneidade? Estas informações podem ser avaliadas através de consultas de crédito como exemplo o Serasa e SPC, consultas de existências de processos judiciais relevantes (PJE, TJ, PEA), informações comerciais confirmando sobre pontualidade de pagamento nos compromissos anteriores, todas essas checagens visam avaliar possíveis restrições de crédito apontados pelo mercado e comportamento do cliente. Em muitas revendas este é um quesito eliminatório para concessão de crédito.

Segundo C: Capacidade.

A capacidade é mensurada com base nas receitas e despesas que o cliente possui, em outras palavras, é analisado se o cliente possui fluxo de caixa (liquidez) para pagamento. Para mensurar a capacidade de pagamento do produtor rural, é necessário analisar dados como área de plantio, produtividade média e valor da saca para comercialização do grão para formar a receita bruta. Deve ser analisado também as despesas operacionais que podem incluir diesel, pagamento de funcionários, custo de insumos, renegociações em andamento com outras empresas, levando em conta as dívidas atuais (pode ser analisado por meio do IRPF, matrícula e certidões de penhores), o fluxo de vencimento dessas obrigações, tempo de atividade no ramo, perfil dos sócios, se o negócio é de sucessão familiar ou profissionalizada, por fim, projetando se o fluxo de caixa (liquidez) será positivo ou negativo e se o cliente terá capacidade financeira de pagamento.

Terceiro C: Capital.

Representa a situação financeira, ou seja, o patrimônio líquido do cliente e seus sócios (atentar para contratos de parcerias), considerando seus ativos e passivos com relação as dívidas contraídas e não liquidadas, se este capital dá suporte para eventuais liquidações. Para pessoas físicas, deve-se analisar o IRPF sempre que possível, associando com os dados informados em uma ficha cadastral, considerando principalmente a relação de bens (considerar valor de mercado e não o declarado), bem como o nível de endividamento do seu patrimônio. Também é importante avaliar as matriculas atualizadas dos imóveis que o tomador possui. A análise desse quesito mede a possibilidade do tomador de crédito de dispor de outros recursos para investir no negócio, em caso de uma quebra de safra por exemplo, independentemente do crédito demandado. Em outras palavras é quando analisamos se o tomador do crédito possui ou não patrimônio suficiente para cobrir uma eventual frustração de safra.

Quarto C: Colateral

No mercado esse item é conhecido também por garantia ou títulos de crédito, que são as garantias oferecidas pelos clientes como forma de minimizar os riscos de inadimplência e da perda parcial ou total de pagamento. No Agronegócio a garantia mais comum e utilizada é a CPR-Física ou CPR-Financeira, vinculando a este título, direitos reais, tais como, penhor de grãos, hipoteca, alienação fiduciária etc. Também sendo permitido vinculação de garantias pessoais como aval, fiador e garantidor ou devedor solidário. O ideal é que a garantia seja acessória e jamais ser aceita para compensar pontos fracos de idoneidade por exemplo, porque quando a honestidade está faltando o crédito incluirá riscos que não devem ser assumidos pela empresa. Se não houver idoneidade por parte do devedor, a garantia será volátil e, provavelmente, não se prestará cobrir suficiente e adequadamente o principal e os juros do financiamento.

Quinto C: Condições:

Este quesito tem o objetivo de entender a real situação do cliente e seu momento financeiro, suas perspectivas, se os fatores externos como câmbio, juros, fenômenos naturais e imprevisíveis ligado ao clima por exemplo, afetam a rentabilidade do cliente. Nesta fase é analisado a localização da estrutura física, se possui capacidade para armazenamento de sua produção ou facilidade de acesso de estradas para transporte, analisa-se também a estrutura administrativa (se possui equipe especializada) se possui uma boa organização financeira, se possui um bom nível tecnológico, analisando como o cliente com seus fornecedores, se mantém concentração de seus negócios (analisa se há diversificação de plantio de várias culturas), pois quanto mais diversificado a cultura, menor os riscos.

Por fim, percebe-se que é necessário analisar um conjunto de informações e dados, onde o objetivo da análise dos 5C´s é entender e conhecer a fundo o cliente em todos os seus aspectos relevantes, identificando situações que podem mudar ou não a sua capacidade de cumprir com os seus acordos. A partir da aplicação desses conceitos, as grandes empresas mostraram que é possível minimizar os riscos e investir na liberação de prazos e créditos para os clientes.

Para isso, é essencial que a revenda construa e consolide uma política de crédito pautada nesses conceitos, interligado às estratégias de negócios da empresa, que viabilize os seus negócios encontrando alternativas para mitigar os riscos da concessão de crédito e consequentemente reduzindo a inadimplência. É importante neste processo que um profissional especializado da área acompanhe ou seja fonte de consulta para uma implementação de sucesso.

No próximo artigo, iremos falar sobre Política de Crédito estruturada para revendas e sua importância.

Artigo publicado na RevistaAgroRevenda.

Karoline Pereira Miranda de Melo
Advogada na Zambiazi Advogados, Especialista em Crédito no Agronegócio, Pós-graduada em Compliance.  Instagram @karol_miranda_advogada.

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